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Futebol como paixão que supera barreiras

Grandes peritos em futebol costumam dizer que não há lógica neste esporte, que não há exatidão como na Matemática, tudo isso amparado na lógica de resultados. No entanto, poucos puderam perceber que há também um elemento capaz de superar o improvável e desafiar as mais fundamentadas teorias. Um elemento que existe não somente nos duelos esportivos, como também faz parte do cotidiano dos jogadores e aficcionados: a paixão. E foi esse sentimento pelo futebol e pela vontade de viver que resgatou a vida de Fernando Couto, 45 anos, um dos milhões de atletas anônimos que existem nos campos de várzea de todo o Brasil.
As dificuldades na vida de Fernando começaram desde cedo. Aos sete anos de idade, tentou subir no muro de casa para chamar o vizinho para brincar, e o mesmo acabou desabando sobre ele. Ao fraturar o braço direito, teve de fazer três cirurgias para corrigi-lo, mas, infelizmente, foram mal sucedidas e Fernando acabou tendo atrofia, o que comprometeu a funcionalidade do membro para sempre. Nem isso o impediu de participar de suas peladas de fim de semana, nem de trilhar os caminhos e os desejos de sua juventude. Apesar das novas dificuldades, seu cotidiano pouco havia mudado.
Escrito por Fernandim às 12h16
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Segunda parte
Como se não bastasse, o pior ainda estava por vir. E aconteceu justamente por causa de sua louca vontade de jogar futebol. Fernando retrata com detalhes o drama que mudaria a sua vida:
_ Foi no 1º de maio de 1993. Um amigo chamou a turma pra jogar futebol no campo da Marinha, na Avenida Brasil. Teríamos que arrumar 22 pessoas. Faltavam duas. Aí, peguei a bicicleta e fui chamar 2 amigos em outra rua. Quando eu cheguei no meio do caminho, o goleiro da nossa pelada pediu pra que eu voltasse e tentasse reunir o restante do pessoal, que ele mesmo iria chamar os que faltavam. Nesse exato momento fui atropelado. Um motorista havia perdido o controle do carro e me pegou próximo ao meio-fio. Meu amigo presenciou tudo o que aconteceu. Eu desmaiei e não me lembrei mais de nada.
Escrito por Fernandim às 12h15
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Terceira parte
Quando acordou, Fernando se deu conta do resultado desesperador. Ele havia sofrido escoriações por todo o corpo, fraturas no punho e antebraço, lesões de ligamentos no joelho, problemas de menisco e cortes profundos na tíbia que poderiam causar infecções. Trocou frequentemente de hospital, foi para o CTI e quase faleceu. Sem falar na notícia do médico que o deixaria ainda mais triste:
_ Depois de um ano e meio me recuperei. Com o tempo, fui fazendo fisioteraria. Quando fiz uma avaliação junto ao médico, ele falou que dificilmente voltaria a jogar futebol.
Sua perseverança em continuar fazendo aquilo que mais gostava, chegou a irritar vários profissionais da medicina. No entanto, foi na fé constante na superação de limites que fez Fernando voltar aos campinhos de terra batida:
_ Eu sempre gostei de jogar bola, e quando eu fui operado aconteceu uma coisa interessante. Eu estava na mesa de cirurgia no Hospital de Bonsucesso e perguntei ao doutor João Granjeiro se poderia voltar a praticar o esporte. Ele virou-se pra mim e disse: Não interessa, cale a boca, não me pergunte mais nada porque eu estou te operando! No final da cirurgia, ele disse que eu voltaria a jogar em um prazo de um ano. Acabei voltando em dois.
A vontade de voltar a jogar por parte de Fernando tardou mas não falhou. O retorno do esporte em sua vida fez com que sua velha rotina reaparecesse. E o seu bom humor e astral também:
_ Quando calcei as chuteiras novamente, recuperei a auto-estima porque a minha vida sem o futebol não tinha muito sentido. Não podia trabalhar, sair de casa, enfim, não podia fazer mais nada a não ser fisioterapia. Quando voltei ao futebol, me senti útil. Um cidadão que conseguia fazer as coisas de que mais gostava.
Escrito por Fernandim às 12h15
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Conclusão
Uma vez tendo ficado longe de sua paixão, o camisa 4 dos campos de várzea sente na carne cada domingo em que, por diversos motivos, não pode jogar a sua peladinha:
_ Hoje, quando deixo de jogar por qualquer motivo, me dá um vazio, sinto como se tirassem algo de mim. Tudo porque meu organismo está acostumado sempre a fazer atividades físicas. Nesses dias leio jornal, ouço rádio e assisto tv, mas nada disso me satisfaz por completo. As manhãs de domingo pra mim, horário quando ocorre a pelada, são tediosas quando eu não posso participar.
Perguntado se, o que diria ao futebol caso ele fosse um pessoa, Fernando, emocionado, desabafou:
_ Se fosse uma pessoa, eu diria: Graças a você, eu faço todo um trabalho de preparação. Corro cinco kilômetros por dia em volta de um rio no Jardim América e na Oliveira Belo, na Vila da Penha. Além disso, faço academia com o intuito de reforçar a musculatura e o vigor físico. Faço isso pela minha paixão por você e para jogar ao lado de meus amigos.
A defesa e a luta pelos ideais de Fernando Couto devem servir como uma lição de vida para muitas pessoas. Demonstrou que os desafios não param e que deve-se viver por superação e evolução permanente. Ele nada mais é do que um herói anônimo que se dispersa no meio da multidão, porém sua história deve ser levada ao público e adotada como uma lei universal: a de que viver é uma dádiva e que a felicidade pode ser encontrada, não importa sob qual preço. O que importa é o seu querer.
Escrito por Fernandim às 12h14
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